“QUANTAS VEZES VOCÊ JÁ FOI AMADA?”: Sobre a solidão da mulher negra e o antirracismo de internet

“Sempre tive o mesmo rosto
A moda que mudou de gosto
E agora querem que eu entenda
Seu afeto repentino
Eu só tô tentando achar, a autoestima, que roubaram de mim”

Autoestima – Baco Exu do Blues.

Falar sobre amor e solidão, especialmente quando se é uma mulher negra, também é um ato político. Comigo concorda Carla Akotirene Santos (@carlaakotirene) escritora e intelectual, pesquisadora sobre Raça e Interseccionalidade.

Quando se é uma mulher negra, duas são suas certezas na vida: o racismo e o medo da solidão provocado por ele. A sociedade contemporânea se fundamenta na seguinte dinâmica para essas mulheres: rejeitadas na infância e adolescência, estigmatizada como a “mais feia da sala”, na passagem para a vida adulta se tornam objeto de desejo, hipersexualizadas e, mais uma vez, desumanizadas, reduzidas a seus corpos e ao famigerado pecado que decorre de sua cor. Porém, sempre preteridas. Trocadas inúmeras vezes por mulheres de peles mais claras, formas mais “aceitáveis”, “respeitáveis”.

O choro da participante do Big Brother Brasil (BBB), Natália Deodato, não foi por ter visto um beijo entre o rapaz por quem ela tinha interesse – e que, diga-se de passagem, alimentou descaradamente esse flerte – e uma mocinha de pele alva, mas sim o choro da solidão. Suas lágrimas reverberaram todas as substituições já vividas, uma ferida que não se fecha. Serei eu amada um dia? Serei eu digna desse amor? Serei eu mais que o meu corpo – padrão ou não – quando a minha pele grita algo que parece soar ofensivo para eles?

Eu particularmente não tenho paciência para militância de internet. Isso porque, via de regra, ela só serve para estressar a interlocutora, que sempre será mal compreendida por aqueles que se decidiram a não entender, e a perpetrar o mito de que “todo preto exagera nesse papo de racismo”. Porém, o posicionamento acerca da forma como o racismo, que faz parte da estrutura social, afeta cada dinâmica de relação humana é fundamental para a disseminação do conhecimento e, enfim, o combate a esse veneno que nos mata – literal e figurativamente – há tantos séculos.

A solidão da mulher preta é um fato notório e inconteste. Funda-se nos estereótipos históricos atribuídos às mulheres afrodescendentes, mais uma herança pútrida e ativamente ignorada da escravidão. De acordo com o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre “Nupcialidade, Fecundidade e Migração”, realizado em 2010, mais da metade da população feminina negra brasileira entrevistada (52,52%) vive o celibato definitivo[1], pois, “A mulher negra não é vista como um sujeito para ser amado”[2].

Os números demonstram o preterimento que doeu em Natália, que já muito doeu em mim mesma e refletem uma vulnerabilidade quase intrínseca à toda mulher negra, que se faz forte pelas lutas da vida, mas sempre terá essa mágoa rasgando o peito. Hoje mesmo um amigo, preto, veio a mim contar como lhe doeu perceber que passou toda a adolescência buscando relacionamentos e valorizando a beleza de mulheres brancas, para só hoje conseguir enxergar a mulher bonita, inteligente e amável (palavras dele, ok haha) que eu sempre fui.

E é exatamente por essa descoberta recente da população em geral de nós, pretos, somos lindos, que temos tanta dificuldade em sustentar nossas autoestimas, assim como muito bem disse Baco.

A questão é: o que pode ser feito? O combate ao racismo estrutural e seus asseclas malditos, como a solidão da mulher negra, é um trabalho diário, exaustivo e imparável. Ser antirracista de fato vai muito além de um post numa rede social ou um comentário e compartilhamento de uma hashtag (sim, gente, #vidasnegrasimportam, mas precisamos de muito mais que isso).

Eu gosto de dizer que ser de fato antirracista envolve três condutas fundamentais: informação, reflexão e ação. Em primeiro lugar, é essencial estudar. Buscar textos, livros, vídeos, ouvir pessoas que têm propriedade sobre os assuntos, furar a bolha do Instagram e ir para além das frases feitas.

O segundo passo, talvez o mais difícil, é a reflexão. Informação sem reflexão é mero dado não processado. Não adianta saber sobre o racismo sem compreender, de fato, qual o seu papel nesse sistema. Sem se aceitar, pessoa branca, como uma racista em potencial. Sem refletir, pessoa negra, como suas condutas e omissões têm servido para ferir ou curar os seus. É assumir responsabilidade.

Por fim, temos a ação. Agir é algo que pode ser feito por diversas frentes. Passando para a frente a palavra, corrigindo práticas racistas – suas e daqueles que te rodeiam, não tolerar comportamentos preconceituosos e, no caso da solidão da mulher negra, por exemplo, acolher aquelas que sofrem e buscar entender o seu papel nesse processo, mitigando suas ações nocivas.

Ser antirracista não é um trabalho para pessoas fracas. Nem para pessoas fortes, na realidade. É extenuante, estressante e tem 95% de chances de causar muita, muita raiva. Mas, literalmente, salva vidas. Não parece uma escolha difícil.

[1]Nupcialidade, Fecundidade e Migração. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/98/cd_2010_nupcialidade_fecundidade_migracao_amostra.pdf. Acesso em 28. Jan. 2022.

[2] “A mulher negra não é vista como um sujeito para ser amado”. Disponível em: https://www.geledes.org.br/mulher-negra-nao-e-vista-como-um-sujeito-para-ser-amado/. Acesso em 28. Jan. 2022.

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