Big Brother Brasil: Meritocracia e Transfobia

Com o ingresso da artista Lina Pereira, também conhecida como Linn da Quebrada (de quem somos fãs, inclusive, você já ouviu o álbum Pajubá?) no Reality Big Brother Brasil 2022, inúmeras situações de transfobia por parte de seus colegas do programa vieram à tona. Desde desrespeito ao seu pronome de tratamento (Ela/Dela) de forma continuada, ao uso da expressão pejorativa e violenta “Traveco” para se referir a Travestis.

Vale lembrar que Lina não é a primeira pessoa transfeminina a participar do Reality, em 2011 Ariadna Arantes esteve no programa por apenas uma semana e foi desrespeitada dentro e fora do programa, sendo vítima de transfobia pela mídia e pela sociedade.
Mas hoje queremos chamar atenção para outro absurdo dito para Lina nesse último mês, que infelizmente faz parte do imaginário da sociedade transfóbica em que vivemos: Culpabilizar pessoas trans por não alcançarem “sucesso na mídia”, atribuindo sua situação de vida a “falta de coragem, persistência e determinação”.

Além da ideia totalmente equivocada de que existe meritocracia no Brasil – um país extremamente desigual onde os 10% mais ricos ganham quase metade da renda nacional, no qual não existem oportunidades iguais para todos e cuja sociedade é racista, machista, transfobica etc – a fala acima desconsidera totalmente a realidade das pessoas trans e travestis no país.

De acordo com o Boletim nº 02/2020 da ANTRA, do ano de 2019 para o ano de 2020 houve o aumento de 90% dos casos de assassinato de pessoas trans no Brasil – sendo todas as contabilizadas travestis e mulheres transexuais. Ademais, no período pesquisado ocorreram 11 suicídios, 22 tentativas de homicídios e 21 violações de direitos humanos identificados (vale ressaltar que os dados de LGBTfobia conhecidos são os coletados por organizações e associação, não de forma oficial pelo Governo Federal, como deveria ser).

Já em relação ao emprego, no ano de 2020 foi identificado que o emprego formal ainda era uma exceção entre pessoas trans e que 90% da população transexual e travesti tem a prostituição como fonte de renda e possibilidade de subsistência. E quem consegue o emprego formal precisa lidar com transfobia diariamente, principalmente porque grande parte das empresas insistem em desrespeitar o nome social de quem ainda não tem seus documentos retificados.

Por fim, segundo dados do Projeto Além do Arco-íris, da AfroReggae, apenas 0,02% das trans estão na universidade e 72% não concluiu o ensino médio. Sabemos que crianças e adolescentes trans enfrentam diversos problemas em suas vivências em uma sociedade transfóbica, desde a escola e faculdade, como dentro de sua própria família, mas isso é uma conversa para outro momento.

Com tudo isso, dá mesmo pra pensar que quem não chega lá é por falta de “coragem, persistência e determinação”?}

Referências:
ANTRA, Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Boletim nº 02/2020: Assassinatos contra travestis e transexuais em 2020.2020. Disponível em: https://antrabrasil.files.wordpress.com/2020/05/boletim-2-2020-assassinatos-antra.pdf. Acesso em: 27/01/2022.
FERNANDES, Daniela. 4 Dados que mostram por que Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, segundo relatório. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-59557761#:~:text=Os%2010%25%20mais%20ricos%20do,%C3%81frica%20e%20o%20Oriente%20M%C3%A9dio. Acesso em: 27/01/2022.
FERREIRA, Letícia. Emprego formal ainda é exceção entre pessoas trans: No Brasil, 90% da população transexual e travesti tem a prostituição como fonte de renda e possibilidade de subsistência. 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/01/emprego-formal-ainda-e-excecao-entre-pessoas-trans.shtml. Acesso em: 27/01/2022.

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